segunda-feira, 26 de maio de 2008

Uma outra visão de Camilo

É de todos conhecido o mau feitio de Camilo, mas por muitos ignorada uma outra faceta do seu carácter, trazida até nós pelo camilianista, seu contemporâneo, António Cabral.
Tinha este acto abonatório de uma índole generosa vindo a público nas páginas d'«O Primeiro de Janeiro» de 3 de Junho de 1890, pouco tempo, portanto, após a morte do escritor.
"Foi há muitos anos, na Póvoa de Varzim.
Camilo achava-se naquela praia, para onde fora com os filhos, que iam fazer uso dos banhos do mar.
No mesmo hotel em que estava Camilo, achava-se um medíocre pintor espanhol, que perdeu no jogo da roleta o dinheiro que levava.
Havia três semanas que o pintor não pagava a conta do hotel, e a dona, uma tal Ernestina, ex-actriz, pouco satisfeita com o procedimento do hóspede, escolheu um dia a hora do jantar para o despedir, explicando ali, sem nenhum género de reservas, o motivo que a obrigava a proceder assim.
Camilo ouviu o mandado de despejo, brutalmente dirigido ao pintor. Quando a inflexível hospedeira acabou de falar, levantou-se, no meio dos outros hóspedes, e disse: - A D. Ernestina é injusta. Eu trouxe do Porto cem mil réis que me mandaram entregar a esse senhor e ainda não o tinha feito por esquecimento. Desempenho-me agora da minha missão.
E puxando por cem mil réis em notas entregou-as ao pintor.
O espanhol, surpreendido com aquela intervenção que estava longe de esperar, não achou uma palavra para responder. Duas lágrimas, porém, lhe deslizaram silenciosas pela faces, como única demonstração de reconhecimento"

9 comentários:

Luísa disse...

Não conhecia esse episódio, Cristina. Mas não me surpreende. Os maiores altruísmos (e uma genuína preocupação com os outros), tenho-os visto nas pessoas de pior feitio. :-)

Cristina Ribeiro disse...

Luísa, por vezes as pessoas surpreendem-nos. Antes de ler este relato de António Cabral, só conhecia o "lado negro" de Camilo.

Amélia das Marmitas disse...

Também não conhecia o episódio.

Nuno Castelo-Branco disse...

Não lhe conhecia esse arroubos beneméritos. Sou um ignorante e tratando-se de Camilo, sempre fui muito comedido em interessar-me em demasia. Enfim, patetices.

mike disse...

Sabendo da sua admiração incondicional por Camilo, por momentos fiquei a pensar se não seria uma manobra sua, simpática e perspicaz, para converter "não fãs de Camilo", como... como algumas pessoas... :)
Mas acho que não, crendo que a história se passou assim mesmo como a conta. :)

Cristina Ribeiro disse...

Também fiquei a conhecê-lo só agora: não é a imagem mais difundida.


Patetices mesmo, Nuno :)


E eu ia lá tentar convertê-lo, Mike:)); não serão episódios destes que fazem gostar do escritor ou não; agora gostar ou não da pessoa...

O Réprobo disse...

Fantástico, Cristina!

Entretanto, comprei hoje umas gotas de Camiliana e aquele livro de Gomes de Amorim em que se fala da visita dos Imperadores do Brasil.
Beijo.

Oh Nuno, então despreza-se assim as Glórias Familiares?
Abraço

Cristina Ribeiro disse...

Paulo, queremos saber quais foram as outras "gotas" que o deixaram quase na ruína :)
Beijo

Nuno Castelo-Branco disse...

Nada disso, Paulo. Deve ser apenas uma mania de não "armar em carapau de corrida". Nada tem em comum com desprezo.