
A leitura deste
lembrou-me que tinha de falar da Mulher d'armas que sempre foi a minha mãe.
Quando solteira, e apesar de ter feito desse um tempo que gosta de recordar, sempre com muita saudade, teve uma vida difícil, como segunda rapariga num rancho de irmãos, quase todos rapazes mais velhos: cedo teve de se fazer adulta, conservando no entanto a frescura e alegria com que sempre enfrentou as adversidades; morando a poucos metros da Escola Primária, não lhe foi permitido ir além da 3ªClasse, porque o trabalho que tinha em casa não deixou.
Casada, bem depressa teve de tomar conta de uma família que se fez numerosa; era uma época em que por cá não se falava ainda em infantários- só ao sétimo filho pôde contar com essa ajuda.
E ao trabalho de ser mãe de tão grande prole- conta que quando queria levar-nos a algum lado, uma vez acabado de preparar o último, tinha de recomeçar, porque o primeiro se sujara entretanto-, teve ainda de juntar o seu esforço ao do meu pai para nos garantir uma vida confortável: era uma época em que, acabado o serviço militar, o meu pai se aventurou a "estabelecer-se por conta própria", e, mais uma vez, foi fundamental o trabalho feminino: no Inverno, por exemplo, levantava-se muito cedo para fazer o café que iria aquecer os empregados, aos quais se juntava a seguir, enquanto os filhos dormíam...
Agora, numa altura em que há muito tempo somos todos adultos, continua a mãe galinha, que não adormece sem primeiro fazer "a ronda" telefónica.
Dona de uma energia invejável, aos setenta e cinco anos ninguém lhe fale em reforma; continua a ser o elemento fundamental na fábrica que ajudou a erguer!
Além de que é um exemplo para todos nós: em Dezembro foi-lhe detectado um problema de saúde que a levou a uma cirurgia muito delicada- pois passado um mês lá estava no seu posto de trabalho...